Uma pesquisa coordenada no Instituto Federal de Mato Grosso – Campus Pontes e Lacerda detectou o coronavírus em morcegos capturados na região do Arco do Desmatamento, entre a Amazônia e o Cerrado, no estado de Mato Grosso. Realizado em colaboração com pesquisadores de diferentes áreas do IFMT, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e com a Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, o estudo foi publicado na renomada revista internacional Zoonoses and Public Health.
A pesquisa é oriunda do projeto intitulado “Os impactos do desmatamento sobre assembleias de morcegos: a associação do isolamento vegetacional com a possível presença de patógenos zoonóticos na transição Cerrado-Amazônia”, aprovado no Edital 20/2022 PROPES/IFMT pelo Grupo de Pesquisa Ecobats, que é coordenado pelo professor do IFMT Campus Pontes e Lacerda, Dr. Sérgio Gomes da Silva, e pela Dr.ª Francimeire Fernandes Ferreira (Secretaria de Saúde de Cuiabá-MT). O trabalho também contou com investimento em ciência e vigilância ambiental pelas agências CNPq, CAPES e FAPERJ.
Segundo Sérgio, os resultados da pesquisa trazem novas informações sobre a diversidade de vírus encontrados na fauna brasileira, além de como essa diversidade viral se molda às mudanças ambientais. “O trabalho reuniu especialistas em Virologia, Ecologia, Biodiversidade e Vigilância em Saúde para analisar a diversidade e a dinâmica de vírus na região, que é intensa e continuamente afetada por ações de desmatamento e fragmentação de habitats. Essas condições podem aumentar o contato desses animais, extremamente importantes para o meio ambiente, com áreas ocupadas por seres humanos e animais domésticos, aumentando o risco de transmissão de doenças.”
Conforme o estudo, 57 morcegos de 17 espécies foram analisados. “Amostras fecais de 16 indivíduos passaram por testes moleculares, e dois apresentaram coronavírus, uma taxa de detecção de 12,5%. Embora o número de amostras seja pequeno, o resultado chama atenção porque confirma que esses vírus circulam em áreas altamente fragmentadas”, explicou o coordenador.
As análises genéticas mostraram que os vírus identificados pertencem ao grupo dos Alphacoronavirus, que já são conhecidos por circularem em outros biomas brasileiros, incluindo Pantanal e Mata Atlântica. “Isso sugere que esses coronavírus estão amplamente distribuídos entre diferentes espécies e ecossistemas. Apesar de não serem do mesmo grupo de vírus responsáveis por causar epidemias e pandemias recentes, os Alphacoronavirus são responsáveis por doenças respiratórias e gastrointestinais em mamíferos”, destacou.
O coordenador avaliou que a pesquisa permitiu entender mais sobre os vírus circulantes nas espécies de morcegos da região e como esses vírus transitam entre essas espécies. “Também ajuda a elucidar como funciona a dinâmica viral em contextos de forte degradação do habitat silvestre. O monitoramento dos vírus presentes nesses ambientes é uma medida necessária para prevenir riscos e fortalecer a vigilância em saúde. Dessa forma, o estudo reforça a importância da abordagem de Saúde Única (One Health), que reconhece que a saúde das pessoas está diretamente ligada à saúde dos animais e dos ecossistemas”, finalizou.
Acesse o estudo publicado na revista clicando no link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zph.70041



